Nômades digitais ganham visibilidade na pandemia.
06/09/2020 09:15 em Tecnologia

De: Marina Dayrell

Jornal O Estado de São Paulo -  Economia

Países como Estônia, Barbados e Geórgia criaram visto para estimular nomadismo digital; com home office intensificado na pandemia, empresas recrutam funcionários de qualquer parte do mundo.

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Para os 8,7 milhões de brasileiros que estão em home office – segundo dados da última Pnad Contínua -, o presente pandêmico tem significado trabalhar entre as quatro paredes de casa. O que hoje é condição obrigatória sugere, no entanto, uma possibilidade para o futuro com vacina e fronteiras abertas. Se você conseguiu trabalhar até aqui longe do escritório ou do coworking do bairro, por que não estar em outra cidade ou até mesmo em outro País?

Os nômades digitais – como são chamados os profissionais que, com um computador e uma boa conexão com a internet, viajam o mundo enquanto trabalham – não são uma novidade da pandemia. Mas nos últimos meses alguns países criaram incentivos para atrair esse tipo de profissional, aproveitando o trabalho remoto compulsório.

Desde agosto, a Estônia passou a oferecer um visto específico para os adeptos do nomadismo digital que queiram viver por até um ano no país. Para se candidatar, o profissional precisa trabalhar ou ser sócio de uma empresa registrada em outro território que não a Estônia ou ser freelancer para clientes que também estejam em outros países.

 

“Nós entendemos que havia uma demanda por profissionais que gostariam de estar na Estônia e continuar trabalhando. Esse tipo de profissional não vem para ficar muitos anos, mas sim alguns meses, e vem com visto de turista. Então, conversamos com vários nômades digitais e pensamos em criar o Digital Nomad Visa (visto de nômade digital)”, explica Ott Vatter, diretor da e-Residency, programa digital do governo que permite que não-residentes abram empresas na Estônia.

Segundo a e-Residency, mais de 100 brasileiros pediram informações sobre o novo visto. Mas, por enquanto, não está autorizada a emissão para profissionais do Brasil, já que há restrições de entrada na União Europeia por conta do número de casos de covid-19. Hoje, cerca de 320 brasileiros vivem no país.

Há cinco anos, Juliana Baldi, sócia da Bananas Music, transformou a empresa em totalmente remota para ser nômade digital. Foto: Alex Silva/Estadão

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da Estônia, já foram emitidos 5 vistos para nômades digitais para profissionais da África do Sul, EUA, Canadá e Singapura. Os vistos custam entre E 80 e E 100 (em média, R$ 480 a R$ 600). Países como Barbados, Bermudas e Geórgia também criaram os seus vistos para nômades digitais.

Novas carreiras surgem com o nomadismo

Quem trabalha em uma empresa que já anunciou o home office permanente, pode começar a planejar uma carreira como nômade digital. A CMO (chief marketing officer) da Revelo – empresa de tecnologia do setor de recursos humanos -, Patricia Carvalho, explica que em um mundo pós-pandemia é provável que o leque de profissões permita que a prática se amplie.

“Antes existiam áreas específicas nas quais as pessoas poderiam ser nômades digitais, como tecnologia, fotografia, marketing digital, produção de conteúdo. O publicitário, por exemplo, navegava bem nisso. Mas agora, como a gente experimentou diferentes profissões online, o leque se abre até para carreiras menos flexíveis, como contadores, recursos humanos, administrativo, financeiro e advogados.”

Pela dinamicidade da carreira, ela também chama a atenção de que, geralmente, os profissionais que optam pelo nomadismo digital são prestadores de serviço, logo, pessoas jurídicas (PJ) e não trabalhadores submetidos à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

“Como o profissional costuma ter muitas alternativas de trabalho, ser PJ nesses casos é mais comum. A pessoa acaba fazendo muitos projetos. E as soft skills (habilidades comportamentais) são essenciais, como autogestão, adaptabilidade, boa comunicação e negociação. O que, geralmente, são características mais comuns a empreendedores.”

Há seis anos, a produtora de conteúdo Raquel Rosceli deixou o cargo em uma empresa para se tornar nômade digital. Atraída pelos horários mais flexíveis e pela possibilidade de determinar as próprias férias, ela fazia em média sete viagens por ano, entre temporadas curtas e longas para cidades do Brasil e países como Irã, Etiópia, Tailândia, Colômbia e Tanzânia.

“Eu fazia um trabalho, juntava dinheiro e ia viajar. Durante a viagem ia captando algum outro projeto. Já trabalhei em cadeira de praia, hotel, mesa de bar. Quando aparecia alguma oportunidade presencial incrível, eu priorizava, mas no geral tentava casar as duas coisas, viagem e trabalho. Mas é sempre bom lembrar que eu sou privilegiada, não tenho filhos e tenho suporte familiar caso tudo dê errado”, explica.

Em janeiro, a produtora voltou para Belo Horizonte – cidade onde mantém a sua base – para um projeto de carnaval e está lá desde então por causa da pandemia.

Empresa e funcionários 100% nômades

Depois de dois anos de empresa, em 2015, a Bananas Music – que faz curadoria musical para marcas – fechou o escritório em Porto Alegre e optou pelo trabalho remoto pela possibilidade do nomadismo digital.

“Fizemos uma pesquisa com os funcionários e todo mundo queria morar em outro lugar e ter mais liberdade para viajar. Como trabalhamos com curadoria musical, é mais interessante termos pessoas em várias partes do Brasil, descobrindo como funciona a cadeia produtiva da música em outros lugares”, explica a sócia Juliana Baldi.

Hoje, são nove funcionários – divididos entre contratos CLT e PJ – espalhados por São Paulo, Porto Alegre, litoral de Santa Catarina, Paraná e Canadá. Juliana e o sócio Rafael Achutti também são nômades digitais.

“Eu fiquei dois anos viajando muito pela Europa, com uma base em Lisboa, sempre trabalhando. No fim do ano sempre volto para o Brasil para fazermos uma imersão e encontrar com a equipe. Vim para São Paulo para fazer um projeto por três meses, mas agora estou há seis, por causa da pandemia”, conta Juliana.

Há seis anos, a produtora de conteúdo Raquel Rosceli deixou o emprego fixo para ser nômade digital. Foto: autorretrato

Ela acredita que ainda haja um estereótipo de desejo muito forte em torno do nomadismo digital, mas na prática não é para todo mundo. “É solitário, quem não tem disciplina sofre. Já teve funcionário nosso que era incrível e que não se encaixou no nosso estilo de trabalho. Não é para qualquer um.”

Já Rafael, depois de ficar quatro meses em Lisboa e se cansar da rotina de mudança, voltou para o Brasil para ficar um pouco mais em um lugar só, na Praia do Rosa, litoral de Santa Catarina. Para ele, um dos pontos principais da criação de vistos para nômades digitais é justamente ajudar nessa parte burocrática e cansativa do processo.

“Como turista, eu não posso ficar mais de três meses na Europa, por exemplo. Às vezes, são muito cansativas essas mudanças. A gente acha que é maravilhoso, mas para criar uma rotina você precisa ficar uns seis meses no lugar, viver aquilo com mais calma e mais tempo. E o visto ajuda nisso.”

Para os sócios, a tendência é que o nomadismo digital nos próximos tempos se vire para o território nacional. “Eu vejo que as pessoas que já experimentaram ser nômades digitais estão começando a ir para cidades menores, um movimento do centro para o interior. Elas estão se dando conta que não faz mais sentido pagar um aluguel caríssimo em São Paulo, por exemplo, sendo que não podem aproveitar o networking que a capital proporciona durante a pandemia”, acredita Juliana.

“Eu saí de Porto Alegre e vim morar no litoral, em uma praia pequena, e tenho visto que a própria cidade está se adaptando a esse movimento. Já até criaram coworking aqui, há um tempo isso não existia”, completa Rafael.

Movimento migratório da capital para o interior

Segundo a CMO da Revelo, Patricia Carvalho, a plataforma registrou um aumento de 25% no movimento migratório das capitais para o interior entre junho e julho. Enquanto o nomadismo digital não é plenamente possível pela pandemia, o que eles têm observado são as empresas contratando pessoas de outras regiões do País, para além da sede.

A Elephant Skin, agência de criação especializada em mercado imobiliário com sede em Miami, tem vagas abertas para profissionais remotos desde a sua criação, em 2016. “A empresa cresceu e a gente precisava de ajuda e de qualidade. Então, não dava para nos prender onde estávamos. Não nascemos com a filosofia de ser remoto, mas como necessidade isso acabou virando o ‘core’ da empresa”, explica o CEO Henrique Driessen.

Entre os 35 funcionários, 85% trabalham remotamente desde sempre. Além de Miami, há profissionais em Nova York, Los Angeles, Vancouver, Recife, Florianópolis, Brasília, Curitiba, São Paulo, Novo Hamburgo, Belém, na Armênia e na Ucrânia.

Há três anos, quando entrou para a empresa, o diretor Kleiton Oliveira procurava um trabalho remoto para conseguir sair do País. “Eu comecei a criar um portfólio mais voltado para projetos de mercado internacional para tentar chamar a atenção de empresas internacionais. Assim, eu aproveitaria o gancho para sair do Brasil já contratado”, conta.

Hoje, ele mora em Recife, mas já foi aos Estados Unidos algumas vezes para visitar a sede da empresa. “Nós temos um apartamento em Miami no qual periodicamente trazemos colaboradores para fazer um intercâmbio. Funciona como um benefício”, explica o CEO.

Para ser nômade digital

  1. Vá para lugares nos quais a cotação da moeda jogue a seu favor

  2. Na hora de definir salário, considere os custos de manutenção de equipamentos e outras contas, como luz e internet

  3. Trabalhe bem as soft skills, como autogestão, adaptabilidade e capacidade de comunicação e negociação

  4. Desenvolva o desapego e o minimalismo, é melhor ter pouca coisa na hora de fazer mudanças de uma cidade a outra

 

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